Com o aumento do interesse — e da desinformação — sobre o diagnóstico de TDAH, o que mais tenho visto no consultório são pessoas que confundem sintomas provocados por maus hábitos de vida com um Transtorno do Neurodesenvolvimento.
Mais da metade dos pacientes que me procuram relatando distração, lapsos de memória e dificuldade de foco simplesmente negligenciam o básico: sono ruim, alimentação desorganizada, zero atividade física e estímulo digital excessivo. Alguns começam a estudar para concurso sem nunca terem construído uma rotina de estudos; outros, depois de anos trabalhando em uma área, resolvem mudar de vida e encaram os estudos — mas, diante da primeira frustração, já buscam um diagnóstico para justificar o baixo rendimento ou recorrer à medicação como um atalho. Quase como um doping cognitivo.
A banalização do diagnóstico revela mais do que desconhecimento
Mostra o quanto a falta de disciplina e de estrutura pessoal vem sendo terceirizada para explicações médicas convenientes, totalmente descoladas da realidade clínica do TDAH. Muitos, ao perceberem que não conseguem conciliar trabalho e estudo, decidem largar o emprego para se dedicar exclusivamente aos estudos. Mas seguem repetindo os mesmos erros: sono desregulado, má alimentação, nenhuma rotina ou método. E, claro, sem rendimento. Quando o desempenho nas provas não aparece, a explicação surge pronta: “deve ser TDAH”.
Paralelamente, o mundo corporativo vive obcecado por performance e resultados, atropelando completamente o ser humano que existe por trás de cada crachá. Mais metas, mais pressão, menos saúde. O que era para ser produtividade virou sobrecarga. O que era entrega virou esgotamento. E a conta, invariavelmente, chega: saúde mental em frangalhos, sono desregulado, hábitos alimentares destruídos, corpo sem movimento.
E, claro, sem energia, sem foco, sem memória. Chegam ao consultório dizendo: “Acho que tenho TDAH”.
Mas o que têm é exaustão, ansiedade, noites mal dormidas e um nível de autoexigência simplesmente insustentável. O TDAH virou o novo bode expiatório de uma sociedade adoecida pelo culto à produtividade.
Como médico, confesso que acho quase engraçado quando vejo pacientes chegando ao consultório já determinados a “forçar” um diagnóstico como TDAH, simplificando algo que, na prática clínica, é muito mais complexo e delicado de se avaliar. Mas, como paciente que realmente convive com esse transtorno, sinto que essa banalização é profundamente triste. Quem romantiza ou busca o diagnóstico como justificativa fácil não faz a menor ideia da dimensão do sofrimento real causado por esse transtorno. Conviver diariamente com TDAH é estar constantemente enfrentando um cérebro que parece funcionar contra você mesmo, tornando até as tarefas mais simples algo extremamente desafiador.
A falta de concentração é apenas a ponta do iceberg que aparece nas redes sociais, onde a propagação superficial do transtorno é constante
Não se fala da profundidade do sofrimento que ele traz. O TDAH é muito mais do que esquecer compromissos ou não render em provas e no trabalho. Envolve instabilidade emocional constante, explosões de impulsividade seguidas de períodos de profunda procrastinação, conflitos nas relações interpessoais e consequências devastadoras para a autoestima e a qualidade de vida geral. Ignorar essa profundidade é banalizar e desrespeitar quem realmente enfrenta, diariamente, a luta para organizar e dar sentido à própria vida em meio ao caos provocado por esse transtorno.
Russell Barkley, um dos maiores especialistas em TDAH no mundo, definiu o transtorno como uma “miopia para o futuro”.
Essa frase carrega um peso real: a dificuldade do paciente não está só no agora, mas em sustentar qualquer projeto de longo prazo. Há um apagamento da consequência futura, como se o cérebro estivesse programado apenas para o presente imediato. E isso afeta tudo — da gestão do tempo às decisões impulsivas que sabotam planos inteiros.
Mas Barkley também aponta algo essencial: “Você não tem culpa de ter TDAH, mas tem toda responsabilidade ao descobri-lo.”
Ao contrário do que muitos imaginam, o diagnóstico não é um álibi. É justamente o ponto de partida para a responsabilidade. Não se trata de esconder falhas atrás de etiquetas, mas de enfrentá-las com maturidade e estratégia. Não dá pra confundir grosseria com instabilidade emocional, nem ausência de método com procrastinação.
Quando compreendido com seriedade, o TDAH deixa de ser rótulo e vira ferramenta de autoconhecimento. O paciente entende seus limites, sim, mas também suas estratégias. É possível assumir responsabilidade sem se culpar por tudo. É possível buscar ajuda sem precisar se justificar o tempo todo. O tratamento — quando bem orientado — não elimina dificuldades, mas reduz o ruído. Ajuda a regular sono, impulsos, planejamento, e principalmente a autoestima, que costuma vir em frangalhos. Mas esse processo exige maturidade, não modismo.
Assim como há mitos sobre o TDAH, há também muitos equívocos sobre a Cannabis medicinal
Ambas as temáticas vêm sendo distorcidas por uma cultura de soluções rápidas e pelo excesso de informação superficial. O mesmo impulso que leva pessoas a buscarem um diagnóstico de TDAH sem critério é o que leva outras a acreditarem que basta fumar um baseado para “resolver o foco”. Mas não é assim que funciona.
Não é raro encontrar pacientes com TDAH que relatam sentir-se mais calmos, centrados ou criativos ao fumar cannabis. E isso, até certo ponto, tem fundamento neurobiológico. Acontece que a maioria esmagadora desses pacientes não consegue — nem tenta — diferenciar o uso terapêutico do recreativo.
A frase clássica se aplica: “a diferença entre o veneno e o remédio é a dose”. E no caso da cannabis fumada, essa dose é incontrolável. O que começa como alívio momentâneo vira vício. O uso perde função e vira fuga. Aquilo que no início parecia solução passa a ser mais um problema. E com o tempo, o que se agrava é justamente aquilo que se queria tratar: impulsividade, desorganização e falta de concentração.
Isso tem uma explicação.
O cérebro com TDAH tem uma tendência natural à busca de gratificação imediata
Isso aumenta o risco de desenvolver vícios — sejam eles por comida, tela, pornografia, compras, ou substâncias. E quando o paciente descobre que a cannabis traz um certo alívio, tende a usar de forma desregulada, crônica, sem acompanhamento. Fuma para dormir, fuma para acordar, fuma para funcionar. E perde o controle. O que era estratégia se transforma em dependência. O que era adaptação vira anestesia emocional. E o TDAH não melhora — disfarça. Temporariamente. Até piorar.
É nesse ponto que a Cannabis medicinal, em sua forma farmacêutica — os óleos ricos em fitocanabinoides específicos — faz diferença
Aqui, não falamos de escapismo, mas de tratamento. O uso adequado, com dose titulada, acompanhamento clínico e formulação apropriada, atua nos sintomas nucleares do TDAH: regula sono, reduz impulsividade, melhora foco e organiza a oscilação de humor. Mais do que isso: o uso correto da cannabis medicinal ajuda, inclusive, a tratar o uso problemático da própria cannabis inalada.
Como médico e paciente que convive diariamente com o TDAH, aprendi que tratar esse transtorno não é apenas silenciar os sintomas, mas dar direção e significado à experiência vivida. O mesmo vale para a cannabis medicinal: não se trata de milagre nem promessa fácil, mas de uma ferramenta terapêutica poderosa que, usada com responsabilidade, pode fazer grande diferença.
Para que a sociedade evolua — e para que tratamentos como a cannabis medicinal se consolidem como parte legítima da prática clínica —, é urgente romper com preconceitos e desinformações. Isso exige mais do que dados: exige escuta, experiência, e sobretudo, humanidade.
