Dr Gabriel Costa https://drgabrielcosta.com Medicina Integrativa e Psciquiatria Mon, 27 Oct 2025 13:02:53 +0000 pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.9.1 https://drgabrielcosta.com/wp-content/uploads/2025/08/cropped-dr-gabriel-costa-cannabis-home-simbolo-logomarca-1-e1754859049366-1-32x32.png Dr Gabriel Costa https://drgabrielcosta.com 32 32 Cannabis regula um sistema inteiro do corpo e muda regras do jogo https://drgabrielcosta.com/cannabis-regula-um-sistema-inteiro-do-corpo-e-muda-regras-do-jogo/ https://drgabrielcosta.com/cannabis-regula-um-sistema-inteiro-do-corpo-e-muda-regras-do-jogo/#respond Thu, 13 Nov 2025 09:00:00 +0000 https://drgabrielcosta.com/?p=341 Tem algo errado quando sentir dor vira sinônimo de falha. É como se o corpo, ao dar um sinal, fosse inconveniente, ou como se o sofrimento fosse algo a ser contido e não compreendido.

A cultura do “segue o jogo” não aceita pausa, não respeita limites, não tolera vulnerabilidade. Basta sentir e já vem a ordem: cale isso. Analgésico, antidepressivo, tarja preta, qualquer coisa que funcione rápido. Ninguém quer compreender a dor, quer silenciá-la.

Mas a pergunta que não cala é outra: por que estamos sentindo tanto?

E mais importante ainda: a quem interessa que essa dor nunca se resolva? A verdade é que somos cúmplices e, mesmo sem perceber, ignoramos o que nos adoece no dia a dia: o sono detonado, a alimentação precária, o excesso de tela. Quando o corpo grita, em vez de escutar, damos mais uma dose. A culpa não é só individual, é cultural.

Enquanto aceitarmos a ideia de que viver bem é não sentir nada, seguiremos alimentando um modelo que lucra com a dor crônica e patologiza qualquer tentativa de pausa

Esse modelo não é novidade. A indústria farmacêutica prosperou exatamente nesse cenário. O maior investimento não é para resolver a dor, mas sim para gerenciá-la. Cria novas fórmulas com nomes diferentes, mas com a mesma lógica de funcionamento. A dor não é combatida, é mantida sob controle. O objetivo nunca foi curar, foi fidelizar.

Do ponto de vista do mercado, curar demais é um problema. Um paciente que melhora, que sai da medicação, que reorganiza a vida, não rende. Não renova receita. Não consome mensalmente. O que se quer é adesão estável, consumo previsível, recorrência. Por isso, não faz sentido para esse modelo investir em soluções que rompam com o ciclo. Faz mais sentido investir em manutenção, em tecnologias que prolonguem o uso, não que libertem o paciente.

E, nesse ponto, é preciso dizer com clareza: eles não estão errados, estão apenas fazendo o que sempre fizeram. Uma indústria existe para gerar lucro. Se o paciente crônico é a garantia do retorno financeiro, o foco da pesquisa será mantê-lo funcional o bastante para continuar comprando, mas nunca livre o suficiente para se desligar. A acessibilidade, a qualidade de vida, o custo-benefício, tudo isso é secundário. O que importa é a continuidade do fluxo. O problema real é que nós, como sociedade, aceitamos essa lógica.

É nesse terreno que a Cannabis medicinal se torna um corpo estranho.

Cannabis não se limita a calar o sintoma, modula um sistema inteiro

Ao atuar no SEC (sistema endocanabinoide), regula dor, sono, humor, inflamação, memória e impulsividade. Não é um tratamento milagroso, mas um modulador do corpo. Isso gera algo que o modelo atual não tolera: autonomia. O paciente começa a melhorar de verdade. Dorme melhor, sente menos dor, depende de menos medicação. Quando isso acontece, sai do radar da indústria da dor e ameaça o império da polifarmácia.

Mas o capitalismo não dorme, ele se adapta. A mesma lógica que transformou o sofrimento em assinatura mensal agora tenta capturar a Cannabis medicinal. Vemos um mercado disfarçado de inovação, mas que repete a velha fórmula: produtos caríssimos, frequentemente com concentrações baixas de Canabidiol, embalados como se fossem descobertas revolucionárias.

Há diversas formulações com CBD isolado, desprezando o efeito comitiva (a combinação de todas as substâncias presentes na planta irá potencializar o efeito terapêutico), e assim formando uma medicação que necessita de doses elevadas para ter resultados satisfatórios.

Para sustentar esse cenário, surgem estudos financiados pelas próprias empresas, não para avançar a ciência, mas para validar o portfólio. O alvo preferencial? O médico desinformado, capturado não pela farmacologia, mas pelo material de divulgação. Nesse contexto, o THC passa a ser marginalizado, não por risco real, mas por estratégia comercial. Não porque faz mal, mas porque ameaça uma das maiores máquinas de receita da indústria, a dor crônica.

O THC é muito mais eficaz para a dor do que o CBD

Não vejo nenhuma coincidência no representante de farmácia que me mostra medicações e, primeiro, oferece o CBD isolado, argumentando que ele é melhor por oferecer “SEGURANÇA”, já que não tem THC. Como um médico que começa a se interessar por esse tratamento vai querer se aprofundar no sistema endocanabinoide se todo mês um representante reforça esse preconceito? Também não vejo coincidência que em congressos nunca vi propaganda ou patrocínio de uma dessas grandes empresas farmacêuticas. Questiono: seria porque não vale a pena pagar para divulgar um produto que não tem competitividade aos olhos de profissionais que são minimamente entendidos? Ou será porque não é viável investir em eventos que instruem e educam os médicos sobre um assunto que eles tentam distorcer e omitir? Fica o questionamento.

O que vivemos hoje é uma guerra fria farmacêutica. Não se trata de ciência contra ciência, e sim de interesses contra necessidades. De um lado, corporações que investem pesado em marketing, lançam produtos com pouca eficiência e vendem promessas a preços abusivos. Financiando seus próprios estudos, moldam o discurso técnico para validar o que mais rentabiliza, e não necessariamente o que mais funciona.

Do outro lado, empresas que escolhem outro caminho: investem em engenharia de dose, sinergia entre fitocanabinoides, custos condizentes com o mercado sério

Junto a elas, associações sérias, que continuam sendo uma das poucas pontes reais entre tratamento digno e acessível. O paciente, preso nesse duelo, segue esperando o que de fato importa: resultado, clareza e respeito.

No fim, quem perde é sempre o mesmo: o paciente, privado de iniciar ou manter o tratamento devido ao custo, e o médico, que tenta tratar com ferramentas distorcidas por marketing e desinformação. A indústria segue ditando o ritmo, agora travestida de inovação, mas repetindo o mesmo roteiro: manter o paciente funcional, mas jamais livre.

A Cannabis medicinal, quando bem conduzida, rompe essa lógica

Mas para que ela seja, de fato, uma virada de chave, e não apenas mais um produto refém do sistema, é preciso mais do que bons compostos: é preciso consciência. Consciência clínica, prescritiva, social. Porque a verdadeira ameaça à indústria da dor crônica não é o canabinoide em si, é o paciente que melhora e não volta.

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Como o Homem Transformou Plantas Medicinais em Drogas e Remédios https://drgabrielcosta.com/como-o-homem-transformou-plantas-medicinais-em-drogas-e-remedios/ https://drgabrielcosta.com/como-o-homem-transformou-plantas-medicinais-em-drogas-e-remedios/#respond Thu, 06 Nov 2025 09:00:00 +0000 https://drgabrielcosta.com/?p=338 Toda vez que um paciente me pergunta se Cannabis medicinal é “droga disfarçada de remédio”, sinto que não é só a dúvida que fala — é o medo. 

Medo de errar de novo. De confiar em mais uma promessa que não se cumpre. De ser julgado. E é compreensível. Por trás da resistência, há história. Há cultura. Há confusão. E, acima de tudo, há repetição. 

A verdade é que essa tensão nos acompanha desde que o ser humano aprendeu a extrair da natureza algo mais do que alimento

A papoula (Papaver somniferum) é um exemplo emblemático — de planta medicinal a símbolo geopolítico. Usada há milênios no Oriente para alívio da dor, deu origem ao ópio, que se tornaria pivô das chamadas Guerras do Ópio no século XIX, quando o comércio forçado dessa substância entre China e Europa expôs o quanto uma planta pode ser manipulada por interesses que nada têm a ver com saúde.

Daí, veio a morfina, depois os opioides sintéticos. E ao longo do caminho, a ciência descobriu o sistema opioide endógeno — com seus receptores mu, kappa e delta — revelando que, na verdade, nosso corpo já estava biologicamente preparado para responder a essas moléculas. O mesmo princípio ativo que trouxe alívio indescritível a pacientes com dor oncológica também alimenta hoje uma das maiores epidemias de dependência química da era moderna. 

Da mesma flor, esperança e colapso. A folha de coca (Erythroxylum coca) também não escapa dessa duplicidade. Em altitudes andinas, seu uso tradicional remonta a milhares de anos, associado à vitalidade, à espiritualidade e à resistência física dos povos nativos — inclusive sendo considerada sagrada por muitas comunidades. Mas a história muda de direção quando a cocaína é isolada em laboratório, no século XIX. A substância, inicialmente celebrada como avanço médico, chegou a ser promovida por nomes influentes como Freud, que prescreveu cocaína como tratamento experimental para dor, fadiga e até mesmo dependência de morfina — tentativa que mais tarde se mostrou ineficaz e arriscada. 

O entusiasmo inicial logo cedeu lugar ao reconhecimento de seu potencial de abuso. Ainda assim, foi justamente a partir dessa molécula que se desenvolveram anestésicos locais que revolucionaram a medicina. Derivados como a lidocaína, continuam sendo amplamente utilizados em procedimentos cirúrgicos e odontológicos, com segurança e eficácia, quando bem indicados. 

Mais uma vez, a mesma planta que deu origem a um dos psicoestimulantes mais problemáticos da modernidade também está por trás de intervenções terapêuticas valiosas — tudo depende de como, quando e por quem é utilizada. 

Tabaco

Com o tabaco (Nicotiana tabacum), a trajetória se inverte — mas carrega consigo uma ironia histórica. Durante séculos, povos originários das Américas utilizaram o tabaco em rituais sagrados de cura, conexão espiritual e proteção. Seu uso medicinal era extenso: cataplasmas com folhas aquecidas para dores musculares, infusões leves como antissépticos pulmonares. Mas o que era planta de medicina se transformou, nas mãos da indústria ocidental, em vetor de adoecimento. 

No século XX, a ascensão do cigarro veio acompanhada de campanhas publicitárias agressivas que garantiam: “Médicos recomendam determinada marca”, “Seguro até para grávidas”, “Bom para a garganta” — frases absurdas hoje, mas veiculadas massivamente por jornais e revistas.

Enquanto isso, a mesma indústria ajudava a demonizar a Cannabis, associando-a a delinquência, preguiça e degradação social, numa campanha sustentada por interesses políticos e econômicos. 

Hoje, o cigarro é legal, onipresente e aceito como um mal menor. Ninguém mais se lembra das propagandas dizendo que fazia bem. A memória coletiva é curta — e seletiva. 

E ainda assim, ao falar de Cannabis medicinal, o que ouvimos?

“Não sabemos se é seguro”, “As evidências ainda são inconclusivas”, “Isso é coisa do demônio”. A mesma sociedade que normalizou o fumo por décadas se mantém cética diante de uma planta com centenas de estudos publicados e inúmeros casos clínicos positivos. Vale a pena refletir sobre isso. 

O álcool tem origem vegetal — é produzido pela fermentação de açúcares presentes em frutas como uva, cereais como cevada e milho, e raízes como a mandioca. 

Historicamente, teve seu lugar na medicina: utilizado como solvente para extratos fitoterápicos, antisséptico em feridas, e anestésico improvisado em tempos onde não havia alternativa melhor. Até hoje, o etanol é usado em contextos hospitalares para desinfecção de superfícies e equipamentos, e como veículo farmacológico em formulações orais. Mas o que era ferramenta terapêutica ancestral foi se convertendo, com o tempo, na substância psicoativa mais amplamente consumida do mundo. 

Hoje, o álcool — em sua forma recreativa — não oferece qualquer benefício à saúde. Nenhum. Pelo contrário: é responsável por mais de dois milhões de mortes anuais, segundo a OMS, e está entre os principais fatores de risco para doenças hepáticas, câncer, transtornos mentais e acidentes graves. 

Milhões de famílias foram desfeitas por seu abuso. Mesmo assim, segue legalizado, romantizado e protegido por um véu de normalidade cultural. 

E isso nos leva a uma pergunta desconfortável: por que uma substância sabidamente tóxica é aceita com tamanha naturalidade, enquanto outras, como a Cannabis — cujos efeitos benéficos estão cada vez mais bem documentados — seguem enfrentando resistência e estigma? 

Essa constatação nos conduz a uma reflexão inevitável: como podemos naturalizar o uso de uma droga sabidamente tóxica e, ao mesmo tempo, seguir demonizando outra substância — a Cannabis — cujo potencial terapêutico está sendo comprovado por estudos, revisões sistemáticas e casos clínicos em todo o mundo? E então chegamos à Cannabis (Cannabis sativa).

Uma planta medicinal milenar, usada por civilizações antigas em rituais, formulações terapêuticas e práticas religiosas, do Egito à Índia. Foi amplamente registrada em farmacopeias de diversos países até o século XX — período em que seu banimento ocorreu não por ineficácia, mas por um movimento político, racista e econômico, iniciado nos Estados Unidos e exportado para o resto do mundo. 

A ciência foi colocada em segundo plano, e o estigma se tornou política pública. Hoje, após décadas de proibição infundada, o pêndulo começa a se reequilibrar. Com mais evidência e menos preconceito, os fitocanabinoides — como o CBD e o THC — vêm demonstrando efeitos claros na modulação do Sistema Endocanabinoide, um eixo fisiológico que regula funções como dor, sono, humor, memória e imunidade. 

A resposta, no entanto, depende de variáveis clínicas e humanas — o composto certo, no paciente certo, com acompanhamento sério e responsável. 

O ponto aqui não é defender planta nenhuma. É reconhecer que cada planta carrega um potencial — e que cabe ao ser humano escolher como se relacionar com ele. 

A diferença entre o remédio e o veneno, entre o uso terapêutico e o abuso destrutivo, está na nossa intenção, na nossa condução e, sobretudo, na responsabilidade com que manejamos o conhecimento. Quando falo com meus pacientes sobre Cannabis, não ofereço promessas vazias nem soluções mágicas. 

Ofereço o que sempre norteou meu trabalho: contexto, evidência e compromisso ético. A Cannabis medicinal, quando bem indicada e monitorada, pode mudar vidas. Mas sem critério, sem acompanhamento e sem escuta clínica, ela corre o mesmo risco de todas as outras: virar excesso, ilusão ou frustração. 

A natureza oferece a matéria-prima — complexa, potente, ambivalente. Cabe a nós, com nossa história, cultura e escolhas clínicas, decidir se essa potência será transformada em remédio ou ruína. Nenhuma substância é má por essência. O que define o destino de cada planta é o olhar que lançamos sobre ela e o uso que escolhemos fazer. Esse discernimento, entre tratar e desvirtuar, é uma decisão humana. Sempre foi.

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Cannabis na Doença de Crohn: da ausência de resposta à remissão clínica e estrutural – relato de caso https://drgabrielcosta.com/cannabis-na-doenca-de-crohn-da-ausencia-de-resposta-a-remissao-clinica-e-estrutural-relato-de-caso/ https://drgabrielcosta.com/cannabis-na-doenca-de-crohn-da-ausencia-de-resposta-a-remissao-clinica-e-estrutural-relato-de-caso/#respond Thu, 30 Oct 2025 09:00:00 +0000 https://drgabrielcosta.com/?p=334 Paciente com Doença de Crohn severa e refratária alcança remissão dos sintomas e melhora endoscópica após tratamento com Cannabis medicinal

A paciente chegou ao meu consultório com meses de dor abdominal, distensão desconfortável e evacuações frequentes com sangue. Aos 65 anos, já diagnosticada com Doença de Crohn e após diversos tratamentos sem resultados satisfatórios, estava visivelmente desanimada, quase sem esperança de uma melhora.

A Doença de Crohn é uma enfermidade inflamatória crônica do trato gastrointestinal, caracterizada por um processo inflamatório ativo que pode afetar qualquer segmento do tubo digestivo, embora seja mais comum no íleo terminal e cólon.

Seus sintomas vão além do intestino: dores abdominais recorrentes, diarreia com sangue, perda de peso e fadiga se associam a manifestações extraintestinais e a um impacto funcional significativo. Na minha prática, acredito que a abordagem terapêutica moderna precisa ir além de simplesmente controlar os sintomas — é necessário modular o processo inflamatório de maneira profunda e restaurar a qualidade de vida do paciente.

Este relato ilustra como uma paciente que inicialmente veio à consulta apenas para renovar um guia de encaminhamento para o gastroenterologista terminou, por meio da modulação do Sistema Endocanabinoide, com remissão total dos sintomas e confirmação, por colonoscopia, do controle da doença. A escolha por um tratamento integrativo transformou o que parecia uma consulta rotineira em um marco clínico decisivo.

Primeira Consulta

A paciente relatava dor abdominal difusa, distensão e entre 5 a 10 evacuações diárias com sangue. Esses sintomas, persistentes por cerca de dois meses, indicavam uma fase ativa da doença.

Com um histórico de tratamentos convencionais sem sucesso, ela me confessou que já não acreditava em mais nada — estava ali apenas para solicitar encaminhamento ao gastroenterologista e exames de rotina. Nos últimos dois anos, havia feito vários tratamentos, todos sem êxito. Seu acompanhamento se resumia a exames semestrais de colonoscopia.

Após ouvir sua história, decidi sugerir uma abordagem alternativa. Expliquei os possíveis benefícios da Cannabis medicinal, tanto para o controle sintomático quanto para a modulação imunológica da doença.

Ela aceitou tentar.

Iniciamos com óleo misto na proporção 1:1 (CBD:THC) Full Spectrum, com titulação semanal: 2 gotas por dose na primeira semana (2,1 mg/dia de cada composto), aumentando progressivamente até 8 gotas/dose na quarta semana (8,4 mg/dia de cada composto).

Evolução clínica precoce e endoscopia inicial

Na segunda consulta, um mês depois, ela chegou transformada. Relatou melhora na dor abdominal já no primeiro dia de uso. Em apenas duas semanas, todos os sintomas — inclusive a diarreia com sangue — desapareceram. A melhora funcional e o impacto na qualidade de vida eram evidentes. Ela me trouxe o resultado de sua colonoscopia:

Apesar da evolução clínica impressionante, o exame realizado nesse mesmo período ainda mostrava inflamação significativa: proctite leve, pancolite erosiva intensa e sinais de doença hemorroidária. Ou seja, a inflamação ainda estava ativa em vários segmentos do intestino. Contudo, isso era esperado, já que a modulação estrutural leva mais tempo para ocorrer do que a resposta clínica. Mantivemos o tratamento e agendamos uma nova avaliação.

Retorno tardio e colonoscopia de comparação (terceira consulta)

Ela só conseguiu retornar sete meses depois, tendo usado o óleo CBD:THC 1:1 por quatro meses, mas interrompido nos últimos três por dificuldades de acesso. Para minha surpresa, manteve-se completamente assintomática durante todo esse período.

Ela trouxe uma nova colonoscopia. O resultado foi animador: a inflamação estava mais localizada e menos extensa, com áreas de mucosa preservada. A proctite havia desaparecido, não havia mais sinais de doença hemorroidária e surgiam cicatrizes e pseudopólipos, indicando que o intestino estava se reparando.

Discussão: atuação canabinoide na doença inflamatória intestinal

Esse caso ilustra com clareza o papel dos fitocanabinoides como agentes moduladores do eixo inflamatório intestinal, especialmente quando seus mecanismos de ação são alinhados com a fisiopatologia da Doença de Crohn.

Sabemos que, nessa condição, ocorre um desequilíbrio imunológico caracterizado pela ativação exacerbada de células T e liberação de citocinas pró-inflamatórias como TNF-α, IL-6 e IL-17 — uma hiperativação do sistema imune que mantém a inflamação intestinal.

O THC, ao ativar os receptores CB1 (no sistema nervoso entérico) e CB2 (nas células imunes), reduz o peristaltismo exacerbado e modula a inflamação, aliviando a dor visceral e controlando a resposta imune. O CBD, por sua vez, inibe diretamente as citocinas inflamatórias e ainda exerce efeito ansiolítico e anti-inflamatório adicional. Essa combinação ajuda a explicar tanto a melhora clínica precoce quanto a subsequente cicatrização tecidual.

A dissociação entre melhora clínica rápida e recuperação estrutural gradual é esperada. O que chama atenção, neste caso, é a manutenção da remissão mesmo após interrupção do tratamento e a melhora evidente na colonoscopia. Isso aponta para um efeito imunomodulador sustentado, mais profundo do que uma simples analgesia.

Conclusão

Este não é apenas um relato de resposta clínica. É, antes, um lembrete de que toda dor que se prolonga sem solução rouba também a esperança, e que parte do nosso papel como médicos é devolver essa esperança com uma abordagem terapêutica racional.

Neste caso, a Cannabis medicinal demonstrou não apenas a capacidade de alívio sintomático imediato, mas também teve um impacto mensurável e documentado na estrutura inflamada do intestino — mesmo após a suspensão do uso.

Além disso, esse caso fortalece o que tenho observado em pacientes com outras doenças inflamatórias de base autoimune, como Artrite Reumatoide, Espondilite Anquilosante, Artrite Psoriásica e até condições neurológicas como Esclerose Múltipla. São contextos fisiopatológicos em que o eixo inflamatório desregulado se entrelaça com sofrimento crônico e perda de autonomia.

Quando trabalhamos com fitocanabinoides de forma estratégica, fundamentada e integrativa, não estamos apenas propondo um alívio de sintomas. Estamos oferecendo uma via real de reequilíbrio sistêmico, capaz de influenciar positivamente a trajetória funcional desses pacientes.

Em um cenário ainda marcado por polarizações e reducionismos, reafirmo: a Cannabis medicinal, quando aplicada com precisão e propósito, é uma opção viável e cada vez mais eficaz na reconstrução de trajetórias clínicas que, até então, pareciam sem saída.

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“Acordar sem dor foi inacreditável” https://drgabrielcosta.com/acordar-sem-dor-foi-inacreditavel/ https://drgabrielcosta.com/acordar-sem-dor-foi-inacreditavel/#respond Thu, 23 Oct 2025 17:04:55 +0000 https://drgabrielcosta.com/?p=327 Após sete anos vivendo sob dores intensas e crises diárias, Bianca de Castro encontrou no canabidiol não apenas alívio imediato da enxaqueca refratária, mas também a chance de retomar sua rotina, reorganizar sua vida e transformar o convívio familiar.

Bianca de Castro nunca imaginou que uma dor de cabeça pudesse dominar sua vida. “Há sete anos, eu não sabia mais o que era ficar sem dor”, lembra. Diagnosticada com enxaqueca refratária, a paciente enfrentava crises intensas quase todos os dias, acompanhadas de náuseas e vômitos, que a obrigavam a procurar atendimento emergencial semanalmente.

“Eu acordava com dor, dormia com dor. Cheguei a tomar uma cartela e meia de dipirona por dia, além de toragesic, naratriptano e, em algumas emergências, até tramadol intravenoso”, conta Bianca. A dor constante a afastou do trabalho — ela atuava na administração de empresas em recuperação — e transformou sua vida familiar: “Nem dona de casa eu conseguia ser. Não conseguia lavar um prato ou brincar com minha filha. Minha vida inteira parou.”

O ponto crítico ocorreu em meados de 2024, quando Bianca passou quase nove horas em um pronto-socorro recebendo múltiplas medicações intravenosas sem melhora. “Peguei o carro vomitando no caminho para casa e só consegui dormir depois de tomar um remédio forte. Foi desesperador. Ali percebi que não dava mais”, recorda.

O primeiro dia sem dor: como o canabidiol devolveu a Bianca o controle sobre sua vida

Foi nesse momento que Bianca conheceu o Dr. Gabriel Costa, médico prescritor de Cannabis medicinal. Em menos de uma semana de tratamento com CBD, ela experimentou algo que não sentia há anos: acordou sem dor.

“Esse dia foi uma vitória. Eu não sei nem explicar o que senti. Acordar sem dor foi inacreditável”, relata.

O alívio imediato permitiu que Bianca começasse uma mudança mais ampla em sua vida. Com orientação médica, passou a adotar hábitos mais saudáveis: exercícios físicos, alimentação equilibrada e aumento da ingestão de água.

“Se não fosse a Cannabis, eu não teria conseguido modificar nada. Ela me deu a força para mudar minha vida”, explica.

A melhora clínica foi acompanhada por uma redução drástica no uso de analgésicos. “Antes eu tomava naratriptano todos os dias, às vezes duas vezes ao dia. Hoje, em mais de um mês de tratamento, tomei apenas três comprimidos. E a frequência de emergências caiu a zero”, diz. O topiramato, prescrito como preventivo, permanece temporariamente, mas há perspectiva de suspensão.

A transformação não afetou apenas Bianca, mas toda a família. Mãe de três filhos — uma menina de 10 anos e dois adultos, de 22 e 28 —, ela relata que a dor crônica comprometeu a dinâmica familiar: “Quando a mãe adoece, adoece a família inteira. Eu era muito presente e, de repente, não conseguia mais ser esposa nem mãe. Hoje, consigo viver normalmente e isso mudou a vida de todos.”

Superando preconceitos iniciais, Bianca defende o uso da Cannabis medicinal: “É um remédio como qualquer outro. Para mim, foi um divisor de águas, porque mudou completamente a minha vida. Não senti nenhum efeito colateral. Só a vida de volta”, finaliza.

Importante!

Se você passa por situações semelhantes às de Bianca, é fundamental que o uso de Cannabis medicinal seja acompanhado por um profissional. O acompanhamento médico permite definir a dosagem correta, selecionar os canabinoides mais adequados e garantir a segurança do tratamento, integrando-o de forma segura com outras terapias.

No Brasil, produtos à base de Cannabis só podem ser adquiridos mediante prescrição médica, conforme regulamentação da Anvisa. Para avaliar se essa alternativa é adequada para o seu caso, clique aqui e agende sua consulta.

Texto escrito por:

Natália Padalko

Jornalista, roteirista e social media, pós-graduada em Filosofia e Literatura. Sólida experiência na área de comunicação, com atuação em editorias de economia, política, cultura e terceiro setor. Apaixonada por crônicas e por contar histórias.

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Hábitos de vida e Sistema Endocanabinoide: o que modula não é só o medicamento https://drgabrielcosta.com/habitos-de-vida-e-sistema-endocanabinoide-o-que-modula-nao-e-so-o-medicamento/ https://drgabrielcosta.com/habitos-de-vida-e-sistema-endocanabinoide-o-que-modula-nao-e-so-o-medicamento/#respond Mon, 11 Aug 2025 14:46:52 +0000 https://drgabrielcosta.com/?p=159 Na minha prática clínica, é comum atender pacientes exaustos. Não só pela doença em si, mas pela frustração de já terem tentado de tudo — e, ainda assim, não se sentirem melhores. Muitos chegam com sacolas de exames, diagnósticos variados, tratamentos fragmentados e um questionamento frequente: “Nenhum tratamento funciona, será que a Cannabis vai resolver meu problema?”.

Nesses casos, percebo que o erro não está apenas na prescrição, mas na ausência do alicerce essencial de uma vida saudável: bons hábitos de vida. Minha resposta geralmente é a seguinte: “Com certeza você não chegou nesse estado da noite para o dia, e provavelmente não foi uma única coisa que desencadeou todo esse sofrimento por tantos anos, dito isso faz sentido uma condição tão arrastada e complexa ser resolvida com uma única coisa?” O tratamento com a Cannabis medicinal definitivamente fará a diferença na sua vida, mas não sozinha.

Quando falamos de modulação do Sistema Endocanabinoide (SEC), é fundamental sair da visão simplista de que basta usar Cannabis medicinal. O SEC responde a estímulos que vão muito além da molécula. Sono, alimentação e exercício físico não são apenas orientações gerais para uma vida saudável — são moduladores diretos do equilíbrio e da homeostase do nosso corpo, integrando o tratamento de qualquer condição médica. Quando negligenciados, mesmo com o uso de fitocanabinoides, a resposta terapêutica é mais lenta e menos eficaz, podendo até perder eficácia com o tempo.

Nutrição: o que você come informa seu sistema regulador

A alimentação impacta diretamente o SEC, já que nosso próprio corpo produz substâncias semelhantes ao CBD e THC. Os principais canabinoides endógenos — anandamida e 2-AG — derivam de ácidos graxos obtidos pela dieta. Uma base alimentar rica em ultraprocessados, com desequilíbrio crônico entre ômega-6 (inflamatório) e ômega-3 (anti-inflamatório), gera uma sinalização endocanabinoide desorganizada, aumentando dor, compulsão alimentar, inflamação e desregulação emocional.

Watkins & Kim (2014) demonstraram que dietas desequilibradas prejudicam diretamente o SEC, exacerbando inflamações e comportamentos relacionados ao estresse e compulsão alimentar. Em contrapartida, dietas balanceadas e enriquecidas com ômega-3 restauram o equilíbrio do SEC, regulando positivamente o humor e auxiliando no controle do peso corporal.

Oriento meus pacientes a começarem pelo básico: mais fibras, mais água, mais frutas e verduras. Menos alimentos industrializados, menos açúcar oculto, menos frituras. Não recomendo dietas restritivas ou milagrosas — o bom senso sempre prevalece. Afinal, você é o que você come, e sua alimentação se transforma no combustível essencial para o funcionamento do seu organismo. Como esperar recuperação eficaz se você prejudica a capacidade natural do corpo com uma alimentação inadequada?

Por melhor que seja o tratamento com medicamentos a base de Cannabis, ele não atua isoladamente como na medicina tradicional. Nós modulamos o Sistema Endocanabinoide, no qual os fitocanabinoides são pilares importantes, mas abordagens como a nutrição também desempenham papéis cruciais.

Atividade física: remédio para o cérebro e combustível para o SEC

A atividade física regular não é negociável. Não é só estética ou bem-estar. Sempre afirmo aos meus pacientes que atividade física é um medicamento essencial para corpo e mente — benefícios como redução das taxas sanguíneas e melhora estética são apenas efeitos colaterais positivos desse tratamento. O exercício, especialmente aeróbico leve a moderado, aumenta os níveis circulantes de anandamida, explicando a sensação de “mente limpa” após uma caminhada ou pedalada.

Além disso, melhora a plasticidade cerebral, reduz inflamações e sensibiliza positivamente os receptores CB1 e CB2. Sallaberry & Possidente (2024) reforçam que exercícios físicos regulares promovem adaptações significativas no SEC, aprimorando a resposta ao estresse, reduzindo ansiedade e aumentando o bem-estar geral.

Independentemente da sua condição clínica (desde que não esteja em uma fase aguda), atividade física é essencial. Não há desculpa válida! Dor no joelho? Hidroginástica. Não gosta de água? Pilates. Não gosta de pilates? Funcional. Qualquer barreira que você levante pode ser superada por alguma modalidade adequada. Lembre-se: mudanças duradouras precisam partir de você, e a atividade física é mais um pilar indispensável na modulação do SEC.

Sono: a base invisível da modulação do organismo

Dormir mal desorganiza o corpo por completo — e o SEC sofre diretamente com isso. Os receptores endocanabinoides, especialmente CB1, regulam partes do ciclo sono-vigília. Privação de sono reduz a sinalização natural da anandamida, aumenta a vulnerabilidade ao estresse e desregula o eixo HPA. Pava et al. (2020) mostram que privação de sono afeta profundamente o SEC, diminuindo a produção e liberação de endocanabinoides essenciais para o ritmo circadiano e equilíbrio emocional. Esses efeitos aumentam diretamente ansiedade, dor crônica e comprometimento cognitivo.

Clinicamente, observo que melhorar o sono transforma tudo: humor, dor, compulsão, foco e energia, além de potencializar a resposta aos canabinoides exógenos. Cuidar do sono é uma das maneiras mais simples e eficazes de otimizar a farmacodinâmica interna.

Luz baixa à noite, evitar telas antes de dormir, criar rituais de transição e manter horários consistentes são pequenos ajustes que reorganizam seu eixo biológico.

O sono é tão importante quanto o próprio tratamento, pois todas as funções do organismo dependem dele. Veja como o ciclo vicioso gerado por um sono ruim agrava o sofrimento:

  • Sofrimento físico e/ou emocional → maior estresse, irritabilidade, ansiedade e tristeza, intensificando o quadro inflamatório;
  • Sono prejudicado (por maus hábitos ou pelo sofrimento) → redução da capacidade de recuperação adequada do corpo e mente;
  • Dia seguinte com agravamento dos sintomas → mais dor, ansiedade e estresse, resultando num ciclo contínuo e crescente.

Conclusão: modulação não se faz só com fármaco

Falar em Sistema Endocanabinoide sem considerar estilo de vida reduz drasticamente a complexidade envolvida. O SEC é altamente sensível: ele responde ao que você come, como você dorme, ao seu nível de atividade física e ao seu estado emocional.

Como médico que utiliza fitocanabinoides diariamente, afirmo com segurança: o impacto do CBD ou THC será significativamente maior e mais duradouro quando o terreno estiver fértil. E esse terreno é construído com bons hábitos.

Na abordagem integrativa, tratamos além das moléculas — tratamos o contexto. É exatamente esse contexto — sono, nutrição e exercício — que diferencia o tratamento meramente sintomático da verdadeira modulação terapêutica. Dados científicos comprovam o que observo diariamente: hábitos saudáveis são uma terapia real, eficaz e indispensável para prevenir doenças, melhorar a qualidade de vida e modular efetivamente o Sistema Endocanabinoide.

Referências:

  • Watkins, B. A., & Kim, J. (2014). The endocannabinoid system: directing eating behavior and metabolism. Frontiers in Psychology, 5, 1506.
  • Sallaberry, C. A., & Possidente, B. (2024). Aerobic Exercise and Endocannabinoids: A Narrative Review of Stress Regulation and Brain Reward Systems. Cureus, 16(3), e55519.
  • Pava, M. J., Makriyannis, A., & Lovinger, D. M. (2020). Cannabinoids, Endocannabinoids and Sleep. Frontiers in Molecular Neuroscience, 13, 125.
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Avós Atípicos: A dor não diagnosticada de uma geração inteira https://drgabrielcosta.com/avos-atipicos-a-dor-nao-diagnosticada-de-uma-geracao-inteira/ https://drgabrielcosta.com/avos-atipicos-a-dor-nao-diagnosticada-de-uma-geracao-inteira/#respond Mon, 11 Aug 2025 14:44:45 +0000 https://drgabrielcosta.com/?p=156 Nunca se falou tanto em TDAH e autismo. E para quem olha de fora, pode até parecer uma epidemia recente. Aí começam os palpites: é culpa da vacina, dos hormônios, da poluição, etc. Mas será que é isso mesmo?

Ou será que estamos apenas enxergando o que sempre esteve aí, camuflado por décadas de negligência e silêncio? Como se fosse mais fácil inventar culpados externos do que reconhecer uma verdade incômoda: essas condições sempre existiram.

A diferença é que agora têm nome, têm critério, têm espaço no mapa da saúde mental

E isso, para quem viveu décadas à margem, parece uma explosão — mas é só o que deveria ter acontecido desde o início: visibilidade. Só que a verdade não está no “boom” de diagnósticos — está no silêncio que veio antes. Durante décadas, esses mesmos quadros passaram despercebidos, confundidos com desobediência, possessão ou fraqueza moral. Onde hoje vemos critérios, antes só havia castigo.

Durante boa parte do século XX, o sofrimento psíquico não tinha nome — tinha punição. O menino que não falava era “retardado”. O que agitava demais era “endemoniado”. A menina que se isolava era “maluca”. Crianças eram amarradas para que os pais pudessem ir trabalhar. Trancadas em casa para não se jogarem na rua. E mesmo assim, muitas vezes morriam: afogadas em rios porque “não mediram o perigo”, pulando de árvores por impulso, atropeladas porque ninguém entendeu a urgência que as movia.

TDAH? Nem se sonhava.

Não havia Ritalina, não havia escala diagnóstica — havia corrente.

Autismo?

Até o DSM-III de 1980, o termo usado ainda era “psicose infantil”. No CID-9, que vigorou até 1975, sequer existia uma classificação clara. Foi só a partir de 1987, com o DSM-III-R, que o autismo começou a ser descrito de forma mais próxima ao que chamamos hoje de transtorno do
espectro. Até então, o que hoje entendemos como espectro era um território mal delimitado, centrado em quadros considerados “graves” e com severo comprometimento funcional — excluindo completamente perfis verbais, inteligentes ou com alguma autonomia.

O TDAH, por sua vez, entrou nos manuais apenas nos anos 1990, inicialmente como “transtorno do déficit de atenção com hiperatividade”, restrito à infância. Mulheres, adultos e os casos predominantemente desatentos seguiram invisíveis por décadas. O reconhecimento dessas
nuances só se consolidou neste século, com os avanços em neuroimagem, genética, estudos longitudinais e, sobretudo, os relatos de quem vive o transtorno por dentro.

Sempre que atendo crianças e consigo aprofundar a conversa com os pais, invariavelmente chegamos no mesmo ponto: “Meu pai também era assim”, dizem. “Meu avô não gostava de barulho, tinha mania de fazer tudo igual, se irritava por qualquer coisa fora do planejado. Minha avó era quieta demais, vivia no canto dela, não se enturmava com ninguém.” E aí vem o impasse: se era comum na família, então não podia ser doença. Mas é exatamente esse o ponto.

O TDAH e o autismo não são invenções modernas — são condições antigas, mascaradas por décadas de silêncio

O avô que não aprendia na escola não era “burro”, tinha dificuldade de aprendizado. A avó que vivia isolada no sítio não era “bicho do mato”,
era sensível a estímulos. Só que naquela época, não havia escuta — havia adaptação forçada. O diagnóstico de hoje, para muitos pais, é uma lente que reorganiza a árvore genealógica. Mas essa lente também assusta, porque reescreve memórias que já estavam mal encaixadas — mas pelo menos estavam quietas.

A vida para nós, indivíduos atípicos, nunca foi fácil

O diagnóstico não resolve tudo — mas dá nome, dá contorno, dá pertencimento. E com isso, muda também o olhar que lançamos sobre o passado e o que projetamos para o futuro. Receber esse nome aos 25, 35 ou 45 anos pode ser transformador. Mas imagine o impacto disso para os seus avós. Avós que não conseguiram seguir os estudos porque simplesmente não conseguiam acompanhar.

Que não se fixaram em empregos porque a desatenção ou o excesso de rigidez atrapalhavam. Que ralaram a vida inteira para garantir a você o que eles nunca tiveram: uma chance.

Talvez sua infância tenha sido menos dura que a dos seus pais — e, com certeza, ainda menos que a dos seus avós. E você, por fim, conseguiu proporcionar aquilo que os seus ancestrais não puderam oferecer. Muitas vezes, nem você teve acesso a esse cuidado — mas conquistou para o seu filho. Ele teve o diagnóstico ainda na infância ou adolescência, iniciou as terapias e os tratamentos adequados, e assim teve a chance real de se tornar um adulto mais funcional.

Para que a vida seja menos dura do que foi para você. Do que foi para seus pais. Do que foi para seus avós

Então, meu caro neurodivergente, por mais duro que seja o seu caminho — e ele é — saiba que você está vivendo na melhor era da saúde mental

Ainda há preconceito, ainda há falhas no sistema, mas também há algo que nunca existiu antes: conhecimento. Existe ciência, existe nome, existe diagnóstico. E, aos poucos, existe também pertencimento. Não é perfeito. Mas é algo. É muito mais do que seus avós tiveram.

Porque, para eles, não havia grupo, nem manual, nem CID, nem DSM. Havia silêncio. Havia castigo. A conversa repetitiva que hoje incomoda — para eles era motivo de piada ou isolamento. O gosto pela rotina, o apego ao mesmo prato, ao mesmo caminho, ao mesmo assunto, ao mesmo hobby… tudo isso, que hoje entendemos como traço, naquela época era tratado como manha, esquisitice, teimosia. E a dor que vinha disso? Ninguém nomeava.

Apenas se acumulava. A verdade é que nem você, com todo seu esforço, consegue imaginar o peso de ser atípico numa época em que ser diferente era quase sinônimo de ser inválido.

Então, da próxima vez que seus avós insistirem no mesmo assunto, no mesmo prato, no mesmo caminho, antes de suspirar de impaciência, respire com compaixão

Porque aquilo que hoje te irrita pode ter sido, por décadas, o único jeito que eles encontraram de não se perder. Os comportamentos que parecem teimosia ou obsessão talvez sejam, na verdade, cicatrizes de mentes que sobreviveram sem nome, sem diagnóstico, sem acolhimento. E se hoje você tem a chance de entender, que isso não sirva apenas para rotular — mas para amar melhor. Vai lá. Puxa conversa. Olha nos olhos. Diz que entende. E, se puder, diz que ama. Porque nenhum diagnóstico vale mais do que isso. E nenhum avô, nenhuma avó, vive para sempre.

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Quando o diagnóstico vira fuga: a romantização do TDAH e o uso irresponsável da Cannabis https://drgabrielcosta.com/quando-o-diagnostico-vira-fuga-a-romantizacao-do-tdah-e-o-uso-irresponsavel-da-cannabis/ https://drgabrielcosta.com/quando-o-diagnostico-vira-fuga-a-romantizacao-do-tdah-e-o-uso-irresponsavel-da-cannabis/#respond Mon, 11 Aug 2025 14:31:01 +0000 https://drgabrielcosta.com/?p=152 Com o aumento do interesse — e da desinformação — sobre o diagnóstico de TDAH, o que mais tenho visto no consultório são pessoas que confundem sintomas provocados por maus hábitos de vida com um Transtorno do Neurodesenvolvimento.

Mais da metade dos pacientes que me procuram relatando distração, lapsos de memória e dificuldade de foco simplesmente negligenciam o básico: sono ruim, alimentação desorganizada, zero atividade física e estímulo digital excessivo. Alguns começam a estudar para concurso sem nunca terem construído uma rotina de estudos; outros, depois de anos trabalhando em uma área, resolvem mudar de vida e encaram os estudos — mas, diante da primeira frustração, já buscam um diagnóstico para justificar o baixo rendimento ou recorrer à medicação como um atalho. Quase como um doping cognitivo.

A banalização do diagnóstico revela mais do que desconhecimento

Mostra o quanto a falta de disciplina e de estrutura pessoal vem sendo terceirizada para explicações médicas convenientes, totalmente descoladas da realidade clínica do TDAH. Muitos, ao perceberem que não conseguem conciliar trabalho e estudo, decidem largar o emprego para se dedicar exclusivamente aos estudos. Mas seguem repetindo os mesmos erros: sono desregulado, má alimentação, nenhuma rotina ou método. E, claro, sem rendimento. Quando o desempenho nas provas não aparece, a explicação surge pronta: “deve ser TDAH”.

Paralelamente, o mundo corporativo vive obcecado por performance e resultados, atropelando completamente o ser humano que existe por trás de cada crachá. Mais metas, mais pressão, menos saúde. O que era para ser produtividade virou sobrecarga. O que era entrega virou esgotamento. E a conta, invariavelmente, chega: saúde mental em frangalhos, sono desregulado, hábitos alimentares destruídos, corpo sem movimento.

E, claro, sem energia, sem foco, sem memória. Chegam ao consultório dizendo: “Acho que tenho TDAH”.

Mas o que têm é exaustão, ansiedade, noites mal dormidas e um nível de autoexigência simplesmente insustentável. O TDAH virou o novo bode expiatório de uma sociedade adoecida pelo culto à produtividade.

Como médico, confesso que acho quase engraçado quando vejo pacientes chegando ao consultório já determinados a “forçar” um diagnóstico como TDAH, simplificando algo que, na prática clínica, é muito mais complexo e delicado de se avaliar. Mas, como paciente que realmente convive com esse transtorno, sinto que essa banalização é profundamente triste. Quem romantiza ou busca o diagnóstico como justificativa fácil não faz a menor ideia da dimensão do sofrimento real causado por esse transtorno. Conviver diariamente com TDAH é estar constantemente enfrentando um cérebro que parece funcionar contra você mesmo, tornando até as tarefas mais simples algo extremamente desafiador.

A falta de concentração é apenas a ponta do iceberg que aparece nas redes sociais, onde a propagação superficial do transtorno é constante

Não se fala da profundidade do sofrimento que ele traz. O TDAH é muito mais do que esquecer compromissos ou não render em provas e no trabalho. Envolve instabilidade emocional constante, explosões de impulsividade seguidas de períodos de profunda procrastinação, conflitos nas relações interpessoais e consequências devastadoras para a autoestima e a qualidade de vida geral. Ignorar essa profundidade é banalizar e desrespeitar quem realmente enfrenta, diariamente, a luta para organizar e dar sentido à própria vida em meio ao caos provocado por esse transtorno.

Russell Barkley, um dos maiores especialistas em TDAH no mundo, definiu o transtorno como uma “miopia para o futuro”.

Essa frase carrega um peso real: a dificuldade do paciente não está só no agora, mas em sustentar qualquer projeto de longo prazo. Há um apagamento da consequência futura, como se o cérebro estivesse programado apenas para o presente imediato. E isso afeta tudo — da gestão do tempo às decisões impulsivas que sabotam planos inteiros.

Mas Barkley também aponta algo essencial: “Você não tem culpa de ter TDAH, mas tem toda responsabilidade ao descobri-lo.”

Ao contrário do que muitos imaginam, o diagnóstico não é um álibi. É justamente o ponto de partida para a responsabilidade. Não se trata de esconder falhas atrás de etiquetas, mas de enfrentá-las com maturidade e estratégia. Não dá pra confundir grosseria com instabilidade emocional, nem ausência de método com procrastinação.

Quando compreendido com seriedade, o TDAH deixa de ser rótulo e vira ferramenta de autoconhecimento. O paciente entende seus limites, sim, mas também suas estratégias. É possível assumir responsabilidade sem se culpar por tudo. É possível buscar ajuda sem precisar se justificar o tempo todo. O tratamento — quando bem orientado — não elimina dificuldades, mas reduz o ruído. Ajuda a regular sono, impulsos, planejamento, e principalmente a autoestima, que costuma vir em frangalhos. Mas esse processo exige maturidade, não modismo.

Assim como há mitos sobre o TDAH, há também muitos equívocos sobre a Cannabis medicinal

Ambas as temáticas vêm sendo distorcidas por uma cultura de soluções rápidas e pelo excesso de informação superficial. O mesmo impulso que leva pessoas a buscarem um diagnóstico de TDAH sem critério é o que leva outras a acreditarem que basta fumar um baseado para “resolver o foco”. Mas não é assim que funciona.

Não é raro encontrar pacientes com TDAH que relatam sentir-se mais calmos, centrados ou criativos ao fumar cannabis. E isso, até certo ponto, tem fundamento neurobiológico. Acontece que a maioria esmagadora desses pacientes não consegue — nem tenta — diferenciar o uso terapêutico do recreativo.

A frase clássica se aplica: “a diferença entre o veneno e o remédio é a dose”. E no caso da cannabis fumada, essa dose é incontrolável. O que começa como alívio momentâneo vira vício. O uso perde função e vira fuga. Aquilo que no início parecia solução passa a ser mais um problema. E com o tempo, o que se agrava é justamente aquilo que se queria tratar: impulsividade, desorganização e falta de concentração.

Isso tem uma explicação.

O cérebro com TDAH tem uma tendência natural à busca de gratificação imediata

Isso aumenta o risco de desenvolver vícios — sejam eles por comida, tela, pornografia, compras, ou substâncias. E quando o paciente descobre que a cannabis traz um certo alívio, tende a usar de forma desregulada, crônica, sem acompanhamento. Fuma para dormir, fuma para acordar, fuma para funcionar. E perde o controle. O que era estratégia se transforma em dependência. O que era adaptação vira anestesia emocional. E o TDAH não melhora — disfarça. Temporariamente. Até piorar.

É nesse ponto que a Cannabis medicinal, em sua forma farmacêutica — os óleos ricos em fitocanabinoides específicos — faz diferença

Aqui, não falamos de escapismo, mas de tratamento. O uso adequado, com dose titulada, acompanhamento clínico e formulação apropriada, atua nos sintomas nucleares do TDAH: regula sono, reduz impulsividade, melhora foco e organiza a oscilação de humor. Mais do que isso: o uso correto da cannabis medicinal ajuda, inclusive, a tratar o uso problemático da própria cannabis inalada.

Como médico e paciente que convive diariamente com o TDAH, aprendi que tratar esse transtorno não é apenas silenciar os sintomas, mas dar direção e significado à experiência vivida. O mesmo vale para a cannabis medicinal: não se trata de milagre nem promessa fácil, mas de uma ferramenta terapêutica poderosa que, usada com responsabilidade, pode fazer grande diferença.

Para que a sociedade evolua — e para que tratamentos como a cannabis medicinal se consolidem como parte legítima da prática clínica —, é urgente romper com preconceitos e desinformações. Isso exige mais do que dados: exige escuta, experiência, e sobretudo, humanidade.

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